30 de abril de 2014

(Spin-off) Irene Adler


- Esquelecresce vai funcionar, mas vai levar semanas até todos os ossos crescerem. – aquela curandeira às vezes esquecia com quem ela estava lidando – Vai ficar de cama por um bom tempo.
Irene era a melhor curandeira que o mundo mágico já conheceu, embora seus métodos pouco ortodoxos a tenham presenteado com a perda do cargo que exercia no St. Mungus. A jovem bruxa agora ganhava a vida atendendo em domicílio, ou vendendo suas poções milagrosas no submundo bruxo. Sua melhor época, é claro, começou no momento em que eu assumi o ministério, praticamente cessaram todas as batidas em busca desse tipo específico de material.
Sua morada atual era uma mansão subterrânea. Irene era apaixonada pelas histórias do Conde Drácula, e conseguiu, por meio de um conhecido íntimo dessa raça podre, uma planta perfeita do castelo do vampiro. A construção durou menos do que uma semana, apenas um bruxo com conhecimento em arquitetura foi necessário, isso e uma boa dose de magia.
- Estou fervendo de magia do caos, mulher, qualquer poção que utilizar em mim vai ter efeito instantâneo. – pelo menos assim eu esperava que acontecesse.
- Vai acabar se tornando uma anomalia se algo der errado, Hitchens, não quero nenhum zumbi em frenesi dentro de Bohemian Hollow – nos tratar pelo sobrenome era uma piada interna desnecessária, mas acabava sendo útil, às vezes. – Controle isso e seja paciente, ou vou pensar que não deseja apreciar minha companhia por mais tempo. – não é bom deixar uma mulher perceber que está sendo usada, ainda mais uma tão esperta quanto Irene Adler.
Eu ainda era um toco, desmembrado e no pior estado possível. Mas toda a magia da Mansão Palarie borbulhava meu sangue, pedindo para ser utilizada, pedindo para ser liberta. A sala de estar de Irene era muito bem decorada, um misto do gosto excêntrico do século XV e da loucura exacerbada dos trouxas dos anos oitenta, século passado. Nunca havia visto espadas e guitarras tão bem arranjadas, de modo a parecer mesmo que pertencessem ao mesmo mundo temporal.
- Por favor, Irenezinha, qual o meu nome? – a sobrancelha levantada era tudo que me restava da velha pose.
- Não vou participar disso mais, Dimitri! – estraga prazeres.
- Eu posso resistir a qualquer coisa, enquanto brilharem as estrelas, haverá o brilho do grande Dimitri Hitchens. – “eternamente” teria sido um termo mais humilde. – Quanto eu preciso tomar?
- Uma colher para cada osso, não importa o tamanho. – como se eu soubesse quantos ossos precisaria repor.
Ela pôs a quantidade necessária em um copo, virou de uma vez em minha boca, tentei ignorar o gosto horrendo. Não posso dizer que a sensação foi boa, não, parecia que trinta bruxos começaram a puxar os meus ossos, um em cada ponto, e não paravam para descansar. Tentei manter a lucidez, mas estava cada vez mais complicado,

Era uma mansão belíssima, colonial, eu diria. Colunas, uma bela sacada, as janelas impecavelmente limpas. A porta da frente estava aberta para mim, chamando pelo meu nome. Avancei lentamente, não sentia a presença de perigo, não estava de posse de minha varinha, de qualquer forma. Cruzei o portal e observei atentamente, um gigantesco lustre pendia do tento no salão principal, uma lareira acesa aquecia o ambiente, de modo que para mim o calor era quase insuportável. No local onde deveria estar a escada, havia uma porta. Eu sabia que se entrasse por ali estaria diante da saída, queria observar o restante daquele prédio magnânimo.
Mas resisti à tentação e desci pela porta na escada, havia uma escadaria interna que parecia interminável. Tudo estava muito escuro, eu estava dependendo cem por cento do meu instinto. No final eu conseguia ver uma luz pequena, pequena o bastante para passar por uma fechadura. Havia uma porta, não estava trancada, abriu-se apenas com minha chegada. Uma luz muito forte vinha de um canto da sala semicircular, o local estava cheio de antiguidades, desde bustos de homens velhos a joias em formato de animais. A supracitada luz vinha de algo que lembrava muito um baú, muito antigo e com várias trancas.
- Você retornou do mundo do esquecimento, Hitchens? – a voz dela soava como a melodia mais bela e mais mortal, fria como gelo ártico – Sabe que nunca conseguirá sair daqui com vida!
Desarmado como eu estava, realmente não me daria bem em um duelo contra ela. Eu poderia simplesmente desaparatar, mas meu desejo pelo que quer que fosse que estivesse brilhando dentro daquele baú me compelia a permanecer ali.
- Seu filho andou me causando problemas, milady, na verdade toda sua linhagem tem sido um carma para o mundo bruxo desde sempre. – o baú vibrava diante de mim, berrava para ser aberto – Sei também que andou tendo suas desavenças com ele, não? Esses assuntos não resolvidos podem vir a ser o fim de uma família tão bem estruturada. – o baú... eu precisava abri-lo imediatamente.
Ela notou minha intenção, nem se deu o trabalho de responder às minhas zombarias. Cortou o ar com sua varinha, o lampejo de luz verde veio em minha direção imponente. Pulei para trás e me agarrei ao baú logo antes de ser atingido.
- Idiota! – de quem ela estava falando?
O feitiço entrou em conflito direto com o selo que me impedia de abrir a arca do tesouro, e lá estava sua tampa escancarada. Rodopiando como um pião que procura ordem em meio ao caos circular, a conexão mais preciosa entre mim e Tarrant Mayfair.
“Agora meu corpo estava completo outra vez!”
A cartola me servia perfeitamente, como me lembrava, e sua magia emanava sombriamente através dos poros de minha pele. Lady Hallec não se surpreendeu pelo fato de eu ainda permanecer vivo, o poder das estrelas era de conhecimento da Senhora dos Anéis.
- Vai me matar outra vez? – seu tom de deboche era aristocrático a ponto de quase me fazer parar para pensar – Não está cansado de reviver essa história?
Não foi desse jeito, não era assim que eu me recordava. Mas eu entendi naquele momento o que me faltava, e não era uma caixa de joias mágicas.

- Dimitri! Acorde já! – a voz de Adler me arrancou da epifania, e lá estava eu de volta a sua sala – Por um momento achei que perderia a razão, sente-se e beba isto!
Sentar-me? Claro, lá estavam minhas belas pernas, esperando para serem utilizadas. Peguei a xícara do que quer que fosse que ela me mandou beber e entornei goela abaixo.
- Quanto tempo passei desacordado? –
- Dois dias, remexeu-se tanto que tive medo que desaparatasse aleatoriamente para Deus sabe onde. – tão zelosa, essa mulher – A poção funcionou perfeitamente, seus membros retornaram ao estado natural.
Pus a xícara de lado e a puxei para mim. Observei o brilho nos seus olhos, era como mergulhar na Via Láctea e se perder em uma nebulosa sem tempo ou espaço definido. Colei seu corpo ao meu, minhas mãos funcionaram como esperado, passeei pelas suas curvas a senti se retesando. Eu já estava sem roupa, rasgar a dela foi trabalho de criança. Observei a sala inteira até notar o livro aberto sob a mesa. Joguei-a no sofá e fomos um.
- Você não perdeu o jeito, Hitchens, ainda não encontrei um bruxo talentoso nessas artes como você. – minha atenção ainda estava no livro – Deveria me visitar mais vezes.
- Espera que eu perca meus membros toda semana? – o livro, ela esquecera a página aberta, uma grande gravura de serpente tomava parte do papel, mas qual era o texto?
Eu vi, consegui ler.
- Pode me visitar sem interesses médicos, seu tratante! –
- Aproveitando, por que você não me diz quais são os seus interesses? Já planejava me infectar com a Bomba Serpente ou apenas aproveitou a oportunidade?
Ela lançou um olhar rápido para o livro e entendeu seu deslize. Sua expressão mudou para um sorriso delicado, maldita.
- Não estou ameaçando você, meu anjo, nem pretendo. Apenas estou cuidado do meu futuro!
- Vai me chantagear, não? Você sempre foi especialista em ter pessoas poderosas nas suas presas! – e como logo fui cair naquela? Confiar em pessoas, esse é o maior dos erros que um homem pode cometer.
- Já disse, isso é para minha própria segurança. Enquanto você estiver do meu lado, nunca precisarei ativar essa belezinha. – Eu já estava do lado dela, que megera do inferno!
Vesti-me o mais rápido que consegui, ela apenas me observava curiosa. Posso dizer que ela foi uma das únicas duas pessoas que já conseguiram me vencer intelectualmente, a única viva, eu nunca imaginei esse golpe vindo dela. Não poderia compartilhar meu sonho com ela, não mais.
- Eu peço que não perca sua confiança em mim por completo, meu anjo, porque ainda posso ser muito útil a você! – no momento sua utilidade seria dar peso a um caixão – Sabe que ainda guardo todos os documentos e feitiços humanos que minha família compilou por todos esses séculos, tenho certeza que vai voltar para me ver muito em breve.
- Irene, se eu voltar aqui vai ser para matar você, você sabe que essa sua bombinha não é mais forte que a magia que me mantem vivo! – será que ela sabia mesmo?
- Você continuará vivo sim, Hitchens, mas em uma dimensão tão distante que levará décadas até encontrar o caminho de volta. Acredito que espera vingança contra os que armaram essa maracutaia contra você, ou estou errada?
- Meu interesse é resolver todo esse caso, ainda tenho uma guerra para evitar, toda a sujeira que o impostor fez em meu nome enquanto eu definhava naquele porão. – estava pronto para partir – Preciso de uma varinha, não posso andar assim.
Ela sorriu e se virou. Um breve movimento de sua própria varinha fez com que todo o pó que havia em seus móveis se juntassem em uma esfera no ar. Ergui minha mão esquerda e esperei. Eu vi asas de fogo, uma calda serrilhada, mas todas essas imagens passaram. E lá estava, o espinho mortal e saudoso. A matícora sorria para mim, todas as fileiras de dentes babando de fome e escárnio.
A varinha me surgiu, exatamente igual à minha anterior, com um recheio um tanto quanto diferente no cerne.
- Você é um demônio encarnado, minha bela! – imagino quais feitiços ela não seria capaz de executar, a meliante.
- São seus olhos, meu anjo –

Aparatei em meio ao gelo desértico, Tarrant ao meu lado, sorrindo.
- Antes de reunir os Noés, vamos em busca do seu chapéu!

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