Coceira.
Uma coceira irritante nas extremidades do meu corpo. Parecia que todos os
vermes da Escócia haviam decido fazer folia pela minha pele. Nem mesmo o Grande
Gatsby conseguiria organizar uma festa cutânea mais bacante do que esta que
hora rabiscava meus poros. Nos primeiros três segundos após despertar a coceira
foi minha única realidade, não fazia ideia de onde eu estava.
Aos
poucos vieram à minha memória algumas imagens turvas, desde um barril com algo
que lembrava óleo trouxa, algumas toras de madeira, vários velhos em volta de
uma mesa, velhos cabeludos e barbudos. Não! Era apenas um homem barbado, não
era velho, era jovem até demais.
“Acorda,
Dimi!”
Aquela
voz me era muito familiar, mas fazia parte de uma realidade há muito deixada
para trás.
Abri
os olhos, observei ao redor. Os tijolos nas paredes eram manchados de cinza,
via-se que algumas explosões aconteceram ali. Resíduos pingavam das prateleiras
em estantes repletas de artigos variados, tudo parecia ferver ao meu redor.
Grades, eu as via no fim da sala. Não diria sala, na verdade, quando eu parecia
estar no fundo de uma grande masmorra.
“Dimi?
Não temos muito tempo, meu amigo, trate de recuperar sua consciência
imediatamente!”
A
névoa dissipou-se. Enxergava claramente o local onde hora eu jazia acorrentado
à parede. A pressão no meu peito mostrou-se ser apenas o ferro, dando três
voltas e me impedindo de executar qualquer movimento.
Tarrant
estava lá, diante de meus olhos. A mesma roupa colorida, os mesmos olhos verdes
lunáticos, observando-me cheios de expectativas.
-
Você está morto! – e minha primeira frase era nada mais do que uma citação do
óbvio – O que significa que o que vejo é apenas uma projeção de minha mente!
“E
discutir sobre isso não levará você a lugar nenhum nesse momento, Dimi!”
Eu
não sei dizer quem de nós dois é mais insuportável.
“Eu
apertaria sua mão, mas vejo que você está impossibilitado de executar um gesto
semelhante nesse momento.”
Pernas
e braços, eu os sentia arder, mas não os via mais. Não havia mais o que ver. Eu
era apenas tórax e cabeça a serem contemplados.
-
Esse é meu porão, Tarrant? – agora eu reconhecia todos os vestígios de minhas
experiências, espalhados pelos cantos da masmorra – Estou encarcerado em minha
própria masmorra?
“É
o que parece!” – cartola! A cartola estava lá, girando freneticamente em sua
cabeça, como quem tem algo a dizer, mas não é provido de boca para se
expressar.
-
Não consigo desaparatar! – ironia, eu mesmo havia enfeitiçado minha casa para
que jamais nenhum bruxo conseguisse entrar ou sair daqui por meio de
aparatação. – Como vim parar aqui?
A
cartola parou de girar e desapareceu. Tarrant me encarou risonhamente e abriu os braços de
forma cristã.
“Ele
estava em um nível superior, pode acreditar, mas a culpa foi toda sua!”
O
homem barbado, mensageiro do passado que retornara para me fazer pagar pelos
meus pecados. Ele surgiu da escuridão com luz em suas mãos, e me jogou no vazio
do esquecimento.
-
Entendo, recordo-me agora. – mas agora eu precisava sair dali.
“Sua
varinha foi destruída, Dimi, seus anéis não se encontram na mansão.”
Escapar.
Magia sem varinha, eu sempre soube como fazer, em teoria. Tudo que eu tinha ali
era a capacidade de enviar minha mente através de Tarrant.
“Seu
feitiço reside nessas paredes, como escapar delas?”
Bem
lembrado, chapeleiro, muito bem lembrado.
-
Confirme minhas lembranças, Tarrant, vá até o andar de cima e me deixe ver se
tudo é real. – um pequeno sorriso, eu sentia, já brotava de meus lábios.
Ele
saiu da jaula, subiu as escadas. Eu conseguia ver através de seus olhos, que
eram os meus olhos. Tudo estava diferente, embora nada tivesse realmente sido
alterado. Aquele andar era meu armazém particular, se eu fosse pego em uma
batida do Ministério, com certeza pagaria uma bela multa por armazenar tantos
artefatos trouxas. Mas em minhas últimas lembranças EU era o Ministério.
Lá
estavam, Tarrant via, os barris de óleo e as toras de madeira.
“Perfeito!
O que fazer com isso, Dimi?”
Ele
só podia espiar para mim, não era nada mais do que uma extensão de minha mente.
Mas ainda assim era magia contida, eu precisava transmutá-la em outro tipo de
feitiço.
“Isso
é o que dá se render aos anéis por tanto tempo, esqueceu toda a parte física de
compor você mesmo seu feitiço.”
Precisei
me concentrar, ir fundo em meu palácio mental, encontrar a porta onde guardei
todas as lembranças e fórmulas secretas.
E lá estava o extenso corredor, incontáveis passagens, incontáveis portas. Um número imenso de informações contidas e livres para serem acessadas.
E lá estava o extenso corredor, incontáveis passagens, incontáveis portas. Um número imenso de informações contidas e livres para serem acessadas.
Eu
corri apressado, precisava encontrar a porta correta. Abri uma delas, dei de
cara com a última pessoa que esperava encontrar por aqui.
-
Oi, Hitchens! Meu amor, está perdido? – Ruiva linda e graciosa. Eleinad
Gryffindor estava melhor do que nunca, mais esplendorosa do que realmente era –
Vasculhando a mente em busca de respostas, querido? O que foi feito daqueles
maravilhosos adereços que você ostentava em cada um de seus dedos? – não
poderia deixar aquela fração de emoção me distrair.
-
Você conhece o lugar, ruiva, onde estão as fórmulas? Onde as escondi? –
negociar com minha própria mente era insano, mas eu tinha que tentar.
Ela
soltou uma gargalhada diabólica enquanto se contorcia de prazer diante de minha
agonia.
-
Está procurando por uma frase de salvação, Hitchens, uma simples frase? – dica
dada, era ótima nesses enigmas escondidos. –
Não
podia me distrair, saí correndo em busca das orações, Eleinad me seguia de
perto.
-
Eu posso contar onde estão, Dimizinho, pode se render a mim agora! – e me
arriscar a perder minha razão para sempre? Nunca!
A
porta das orações estava lá, bem onde eu a guardei. Pareceu tão óbvio quando
estava de frente a ela, como parecem todos os enigmas quando respondidos.
-
Porta número 221B! –
Tarrant
gritou por meu nome e despertei.
“E
aí, Dimi, como vai ser?”
Fogo,
meu amigo imaginário, vou fazer você queimar.
Tarrant
sorriu diante do entendimento, sentou-se em cima de um dos barris e esperou
alegremente pelo meu comando. A questão era simples, Tarrant era minha mente
transmutada magicamente, era magia em forma de visão. Era toda a energia mágica
da qual eu detinha naquelas condições.
-
Că viața ta devine combustie spontană să
plângă în liniște –
E Tarrant tremeu como um terremoto na
crosta terrestre!
“Estou esperando!”
Juntei todo o ar de meus pulmões enfraquecidos!
- INCÊNDIO! –
E os muros da mansão foram pelos ares, e as estruturas
abaladas cederam. A magia das paredes voltou ao seu mestre, e eu pude senti-la
pelas minhas veias.
E desaparetei!
É um imenso prazer contar com a ajuda de um futuro advogado e um excelente narrador de RPG,
Avner Pardal, indiretamente a culpa disso tudo é dele.
O prazer foi todo nosso!
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