A neve branca brilhando no chão, sem
pegadas para seguir. Um reino de isolamento, e eu estava atrás do rei. A
tempestade vinha chegando, e eu sinceramente já não sabia. Não consegui me
conter, o Universo sabe que eu tentei. Não deixei que me vissem, não deixei que
percebessem, mas eu estava diante do enorme palácio de gelo.
O Gigante do Norte era apenas um dos
vários nomes pelos quais o Valhalla era conhecido. Era tão magnificamente
grande, que mesmo há cinquenta quilômetros de distância ele já era visível,
como uma casa senhorial que estivesse no outro lado da rua. Não pude aparatar
mais próximo que isso, com certeza teria sido detectado por um dos dezenas de
feitiços que protegiam a fortaleza nórdica.
As vestes que Irene me arrumou eram
fabulosas, tanto quanto eram velhas. Botas negras do século dezenove, firmes,
de couro de algum animal da pele grossa; muito úteis para se andar na neve, mas
o contraste com a calça de linho marrom era gritante em meio àquele mar de
branco. Com certeza cedo ou tarde eu seria visto, e então a ação começaria. A
sobrecasaca de cor vermelho-vinho também era um chamariz, os guardas logo me
receberiam. A mudança mais drástica tinha sido meu cabelo. Os meses sem corte
me deram uma aparência muito mais rebelde do que pretendia, e a explosão de
magia do caos tingiu os fios de um vermelho fogo tão ardente que até um bruxo
cego sentiria seu calor. Em resumo, sem um feitiço de desilusão eu jamais
chegaria intacto aos portões.
E foi exatamente isso que eu fiz.
Eu agora era apenas mais um borrão
branco, movendo-se rapidamente pelo espesso gelo ártico. Nada em volta, nem um
alma visível, e a música das invisíveis ressonava em meus ouvidos. Tarrant riu
ao perscrutar meus pensamentos.
“Teria que derrubar qualquer um que
aparecesse, de qualquer forma! Além do mais ninguém conseguiria ver você desse
jeito, não é?”
Eu sorri. Convivi muito tempo com
Tarrant a ponto da personalidade dele ser muito bem representada por esse meu
feitiço psicótico.
- O problema é que já me cansei de
andar, e o quadro piora quando você tem a noção de que ainda temos vinte e
cinco quilômetros de caminhada.
“E os Noés, já pensou em algum plano
para reunir os quatorze?” – Quatorze? Do que estava falando, maluco?
Parei minha caminhada e mirei os olhos
do chapeleiro.
- O décimo quarto vive? – essa
informação era completamente nova para mim, como ele poderia saber disso?
“Sim, eu ouvi uma conversa na sala da
sua casa, entre o impostor e um outro bruxo. Aparentemente ele está muito
vivo.”
Voltei a caminhar, ainda mais depressa.
- Se considerarmos o fato de como eles
estão sendo tratados, como se fossem reles instrumentos dos bruxos... Era de se
imaginar que ele tentaria algo grande.
Ele sorriu. Interessante descobrir que enquanto
eu estava abatido minha consciência mágica rondava livre pelos corredores da
Mansão Palarie. Imagino quantas conversas mais ele ouvira.
“Não muitas, na maioria das vezes não
havia ninguém em casa, era uma solidão infinda.”
Algumas horas de caminhadas depois, e eu
finalmente estava diante dos colossais portões que guardavam a entrada do
Valhalla. Daqui por diante não haveria problemas em ser visto, qualquer
abertura e eu estaria dentro do salão muito facilmente. Desfiz o feitiço de
desilusão e esperei.
Em menos de dois segundos dois bruxo
surgiram diante de mim, aparataram entre mim e a entrada, como dois guardas
armados.
- Nome e objetivo? – achei meio fria a
abordagem.
- Dimitri Hitchens, descendente direto
de Bob Hitchens e Isla Black! – fazia tempo que eu não me apresentava dessa
forma.
- Como saber? – mas que rapaz
desconfiado!
Levantei minha mão esquerda, palma
virada para frente.
- Am
venit din sânge regal la gheață regale, așa că am să dezvălui semnatura mea la
paza loial! –
Senti o ardor na palma da mão, o ardor
que vinha da marca dos Hitchens, o ardor que revelava H alado que abria todas
as portas das terras geladas. O bruxo arregalou os olhos, assombrado, porém
satisfeito com o retorno da antiga linhagem.
- Perdoe minhas ações, meu senhor, apenas
averiguações de rotina. – mas olha que mudança.
- Sem problemas, faça de contas que eu
nem passei por aqui! –
- Com certeza, senhor! Não saberão pelas
nossas bocas. – falava pelos dois, porque o outro bruxo ainda estava muito
espantado para formar qualquer palavra.
O portão me foi aberto, e logo me vi
diante do trono nórdico. O trono vazio?
O salão era majestoso, como deve ser
todo salão real. Tudo era feito de gelo, o poderoso gelo mágico. A arquitetura
tinha o formato de um martelo, é claro, sendo o grande corredor ladeado por
gigantescas pilastras o cabo do famoso Mjölnir. Não havia pinturas, ou qualquer
tipo de decoração. Os pilares eram toda a arte do lugar, embora não deixassem
nada a desejar.
“Por que o trono está vazio?” – se ele
não sabia, como eu saberia?
Dei uma olhada geral em cada canto,
memorizei as saídas laterais ao altar real. Acima de nossas cabeças o céu era
totalmente visível através do teto transparente.
“Sua barba congelou, Dimi!” – e se
perdeu em uma risada embaraçosa.
Ouvi passos, da esquerda. Passos firmes
e decididos, vinham ininterruptos em minha direção. Rapidamente memorizei a
localização de todas as janelas, pude também atentar para a corda usada para
chamar os serviçais, tudo no melhor estilo medieval, acima do trono real.
- Sinto um abalo nas vibrações! – falou
o Mestre Yoda – Quem ousa penetrar o salão sagrado na ausência do rei?
Era um homem grande e forte, usava as
vestes cerimoniais de um Viking, com requintes do bom gosto vitoriano. Isso
mais seu sotaque, com certeza esse cidadão não era nórdico.
- Ausência... e já que tocou no
assunto... onde está o dito cujo? – o bruxo não parou de andar, mesmo depois
que me ouviu vinha irredutível para cima de mim – Amigo, já pode parar de
avançar!
Ele estancou quando me viu. Quase
careca, o coitado, mas seu olhar assassino me impediu de fazer piada naquele
momento. Naquele momento.
- Os negócios de vossa alteza real não
são da sua conta, invasor! – a varinha foi sacada rápido, mas nenhum feitiço
veio até mim – Trate de expor suas intenções imediatamente, e tudo que tiver
que tratar com Valhalla terá de ser direcionado a mim!
Um girou rápido de sua varinha e logo
senti uma vibração no ar. Era como se algo houvesse sido acrescentado e algo
retirado.
- Certo... mas qual seu nome mesmo? –
ele se esqueceu de se apresentar, dá para acreditar?
- Gareth está bom! – não estava não, mas
eu não estava ali para discussões desse tipo.
- Certo, Gareth, eu sou Dimitri
Hitchens, já deve ter ouvido falar de mim, com certeza! – sem dúvida, mas não
esperei confirmação – Eu vim aqui reaver um item que me foi cruelmente furtado,
e tomei conhecimento por fontes mágicas de que seu rei o esconde nos calabouços
desse maravilhoso pedaço de gelo!
Gareth não gostou da minha eloquência,
mas estava aí outra coisa pela qual eu não estava interessado em discutir.
- Valhalla não comete esse tipo de
crime, seu inseto petulante, como ousa acusar sua alteza real de tamanho
delito? – perda de tempo esse diálogo, e tempo eu tinha pouquíssimo.
Eu me lembrava de exatamente duas formas
de se chegar aos calabouços, mas ele estava parado entre mim e a forma mais
fácil.
- Não adianta tentar desaparatar, todos
os feitiços foram bloqueados dentro desse salão, exceto pelos meus, é claro. –
então fora isso que o bastardo fizeram com a varinha –
- Acredito então que eu esteja, no
significado mais literal da palavra, completamente encurralado! – fui me
distanciando dele e me aproximando do trono – Facultativamente falando você
cortou todas as minhas chances de sucesso nessa minha malfadada missão. – ele
me acompanhou com o olhar de tigre polar – E agora suponho que eu necessite
encontrar uma rota alternativa para fugir daqui, não é isso?
Ele soltou uma risada medonha e rouca.
- Não há escapatória para você, invasor,
você não vai passar! – se ele estivesse segurando um cajado eu até obedeceria.
Sorri maliciosamente, estava perto o
bastante do trono. Achei interessante observar, Tarrant não estava mais
presente na sala. Voltei meu foco de ação, saltei para o trono a tempo de me
livrar de sua maldição. Ele se preparava para lançar o próximo feitiço, mas era
muito lento para mim. De cima do encosto do trono, saltei e me agarrei com a
grossa corda campainha. Dali foi só uma questão de balançar, lógico que o
feitiço ferreteante dele ajudou um bocado.
- Se eu fosse você procurava alguma
poção contra calvície, ou no mínimo uma peruca. – balançava mais – Ah, outra
coisa: espero que seus pesadelos passem!
Aí ele parou e me olhou com um semblante
confuso. Eu não tinha tempo de parar para explicar sobre olheiras e bigodes
despenteados. Soltei a corda e me arremessei pela janela convenientemente
destrancada. Abri e me meti para fora, enquanto Garreth metralhava as paredes
com feitiços. Eu tinha pouco tempo, tinha que alcançar o ponto mais alto do castelo,
onde jazia escondido um túnel que descia pelo pilar principal do castelo.
Apenas a família real tinha conhecimento dessa passagem, então certamente o
grandalhão nem imaginava o que eu planejara.
Continua!
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