7 de maio de 2014

(Spin-Off) No Valhalla – Parte 01

 
A neve branca brilhando no chão, sem pegadas para seguir. Um reino de isolamento, e eu estava atrás do rei. A tempestade vinha chegando, e eu sinceramente já não sabia. Não consegui me conter, o Universo sabe que eu tentei. Não deixei que me vissem, não deixei que percebessem, mas eu estava diante do enorme palácio de gelo.
O Gigante do Norte era apenas um dos vários nomes pelos quais o Valhalla era conhecido. Era tão magnificamente grande, que mesmo há cinquenta quilômetros de distância ele já era visível, como uma casa senhorial que estivesse no outro lado da rua. Não pude aparatar mais próximo que isso, com certeza teria sido detectado por um dos dezenas de feitiços que protegiam a fortaleza nórdica.
As vestes que Irene me arrumou eram fabulosas, tanto quanto eram velhas. Botas negras do século dezenove, firmes, de couro de algum animal da pele grossa; muito úteis para se andar na neve, mas o contraste com a calça de linho marrom era gritante em meio àquele mar de branco. Com certeza cedo ou tarde eu seria visto, e então a ação começaria. A sobrecasaca de cor vermelho-vinho também era um chamariz, os guardas logo me receberiam. A mudança mais drástica tinha sido meu cabelo. Os meses sem corte me deram uma aparência muito mais rebelde do que pretendia, e a explosão de magia do caos tingiu os fios de um vermelho fogo tão ardente que até um bruxo cego sentiria seu calor. Em resumo, sem um feitiço de desilusão eu jamais chegaria intacto aos portões.
E foi exatamente isso que eu fiz.
Eu agora era apenas mais um borrão branco, movendo-se rapidamente pelo espesso gelo ártico. Nada em volta, nem um alma visível, e a música das invisíveis ressonava em meus ouvidos. Tarrant riu ao perscrutar meus pensamentos.
“Teria que derrubar qualquer um que aparecesse, de qualquer forma! Além do mais ninguém conseguiria ver você desse jeito, não é?”
Eu sorri. Convivi muito tempo com Tarrant a ponto da personalidade dele ser muito bem representada por esse meu feitiço psicótico.
- O problema é que já me cansei de andar, e o quadro piora quando você tem a noção de que ainda temos vinte e cinco quilômetros de caminhada.
“E os Noés, já pensou em algum plano para reunir os quatorze?” – Quatorze? Do que estava falando, maluco?
Parei minha caminhada e mirei os olhos do chapeleiro.
- O décimo quarto vive? – essa informação era completamente nova para mim, como ele poderia saber disso?
“Sim, eu ouvi uma conversa na sala da sua casa, entre o impostor e um outro bruxo. Aparentemente ele está muito vivo.”
Voltei a caminhar, ainda mais depressa.
- Se considerarmos o fato de como eles estão sendo tratados, como se fossem reles instrumentos dos bruxos... Era de se imaginar que ele tentaria algo grande.
Ele sorriu. Interessante descobrir que enquanto eu estava abatido minha consciência mágica rondava livre pelos corredores da Mansão Palarie. Imagino quantas conversas mais ele ouvira.
“Não muitas, na maioria das vezes não havia ninguém em casa, era uma solidão infinda.”
Algumas horas de caminhadas depois, e eu finalmente estava diante dos colossais portões que guardavam a entrada do Valhalla. Daqui por diante não haveria problemas em ser visto, qualquer abertura e eu estaria dentro do salão muito facilmente. Desfiz o feitiço de desilusão e esperei.
Em menos de dois segundos dois bruxo surgiram diante de mim, aparataram entre mim e a entrada, como dois guardas armados.
- Nome e objetivo? – achei meio fria a abordagem.
- Dimitri Hitchens, descendente direto de Bob Hitchens e Isla Black! – fazia tempo que eu não me apresentava dessa forma.
- Como saber? – mas que rapaz desconfiado!
Levantei minha mão esquerda, palma virada para frente.
- Am venit din sânge regal la gheață regale, așa că am să dezvălui semnatura mea la paza loial! –
Senti o ardor na palma da mão, o ardor que vinha da marca dos Hitchens, o ardor que revelava H alado que abria todas as portas das terras geladas. O bruxo arregalou os olhos, assombrado, porém satisfeito com o retorno da antiga linhagem.
- Perdoe minhas ações, meu senhor, apenas averiguações de rotina. – mas olha que mudança.
- Sem problemas, faça de contas que eu nem passei por aqui! –
- Com certeza, senhor! Não saberão pelas nossas bocas. – falava pelos dois, porque o outro bruxo ainda estava muito espantado para formar qualquer palavra.
O portão me foi aberto, e logo me vi diante do trono nórdico. O trono vazio?
O salão era majestoso, como deve ser todo salão real. Tudo era feito de gelo, o poderoso gelo mágico. A arquitetura tinha o formato de um martelo, é claro, sendo o grande corredor ladeado por gigantescas pilastras o cabo do famoso Mjölnir. Não havia pinturas, ou qualquer tipo de decoração. Os pilares eram toda a arte do lugar, embora não deixassem nada a desejar.
“Por que o trono está vazio?” – se ele não sabia, como eu saberia?
Dei uma olhada geral em cada canto, memorizei as saídas laterais ao altar real. Acima de nossas cabeças o céu era totalmente visível através do teto transparente.
“Sua barba congelou, Dimi!” – e se perdeu em uma risada embaraçosa.
Ouvi passos, da esquerda. Passos firmes e decididos, vinham ininterruptos em minha direção. Rapidamente memorizei a localização de todas as janelas, pude também atentar para a corda usada para chamar os serviçais, tudo no melhor estilo medieval, acima do trono real.
- Sinto um abalo nas vibrações! – falou o Mestre Yoda – Quem ousa penetrar o salão sagrado na ausência do rei?
Era um homem grande e forte, usava as vestes cerimoniais de um Viking, com requintes do bom gosto vitoriano. Isso mais seu sotaque, com certeza esse cidadão não era nórdico.
- Ausência... e já que tocou no assunto... onde está o dito cujo? – o bruxo não parou de andar, mesmo depois que me ouviu vinha irredutível para cima de mim – Amigo, já pode parar de avançar!
Ele estancou quando me viu. Quase careca, o coitado, mas seu olhar assassino me impediu de fazer piada naquele momento. Naquele momento.
- Os negócios de vossa alteza real não são da sua conta, invasor! – a varinha foi sacada rápido, mas nenhum feitiço veio até mim – Trate de expor suas intenções imediatamente, e tudo que tiver que tratar com Valhalla terá de ser direcionado a mim!
Um girou rápido de sua varinha e logo senti uma vibração no ar. Era como se algo houvesse sido acrescentado e algo retirado.
- Certo... mas qual seu nome mesmo? – ele se esqueceu de se apresentar, dá para acreditar?
- Gareth está bom! – não estava não, mas eu não estava ali para discussões desse tipo.
- Certo, Gareth, eu sou Dimitri Hitchens, já deve ter ouvido falar de mim, com certeza! – sem dúvida, mas não esperei confirmação – Eu vim aqui reaver um item que me foi cruelmente furtado, e tomei conhecimento por fontes mágicas de que seu rei o esconde nos calabouços desse maravilhoso pedaço de gelo!
Gareth não gostou da minha eloquência, mas estava aí outra coisa pela qual eu não estava interessado em discutir.
- Valhalla não comete esse tipo de crime, seu inseto petulante, como ousa acusar sua alteza real de tamanho delito? – perda de tempo esse diálogo, e tempo eu tinha pouquíssimo.
Eu me lembrava de exatamente duas formas de se chegar aos calabouços, mas ele estava parado entre mim e a forma mais fácil.
- Não adianta tentar desaparatar, todos os feitiços foram bloqueados dentro desse salão, exceto pelos meus, é claro. – então fora isso que o bastardo fizeram com a varinha –
- Acredito então que eu esteja, no significado mais literal da palavra, completamente encurralado! – fui me distanciando dele e me aproximando do trono – Facultativamente falando você cortou todas as minhas chances de sucesso nessa minha malfadada missão. – ele me acompanhou com o olhar de tigre polar – E agora suponho que eu necessite encontrar uma rota alternativa para fugir daqui, não é isso?
Ele soltou uma risada medonha e rouca.
- Não há escapatória para você, invasor, você não vai passar! – se ele estivesse segurando um cajado eu até obedeceria.
Sorri maliciosamente, estava perto o bastante do trono. Achei interessante observar, Tarrant não estava mais presente na sala. Voltei meu foco de ação, saltei para o trono a tempo de me livrar de sua maldição. Ele se preparava para lançar o próximo feitiço, mas era muito lento para mim. De cima do encosto do trono, saltei e me agarrei com a grossa corda campainha. Dali foi só uma questão de balançar, lógico que o feitiço ferreteante dele ajudou um bocado.
- Se eu fosse você procurava alguma poção contra calvície, ou no mínimo uma peruca. – balançava mais – Ah, outra coisa: espero que seus pesadelos passem!
Aí ele parou e me olhou com um semblante confuso. Eu não tinha tempo de parar para explicar sobre olheiras e bigodes despenteados. Soltei a corda e me arremessei pela janela convenientemente destrancada. Abri e me meti para fora, enquanto Garreth metralhava as paredes com feitiços. Eu tinha pouco tempo, tinha que alcançar o ponto mais alto do castelo, onde jazia escondido um túnel que descia pelo pilar principal do castelo. Apenas a família real tinha conhecimento dessa passagem, então certamente o grandalhão nem imaginava o que eu planejara.

Continua!

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