21 de maio de 2014

(Spin-off) Noruega - Parte 1



“Podemos começar pelo último nome, já estamos na Noruega mesmo.” Essa habilidade que ele tinha de citar o óbvio às vezes era aborrecedora.
- Tanto faz, aparatando qualquer distância se torna centímetros. – se era esse o jogo dele, eu estava no páreo.
A noite em Oslo estava agitada, alguma festividade fez com que os cidadãos que àquela hora estariam em casa assistindo a algum programa de televisão, estivessem perambulando em direção ao pátio do palácio. De longe eu pude ouvir a música dos trouxas, aquela distorção sem sentido nem razão.
O endereço direcionava ao lado menos abastado da cidade, casinhas simplistas e nada modernas adornavam a rua. Caminhei ao lado de Tarrant, tentei me portar como um trouxa para que ninguém me distinguisse dos transeuntes ordinários.
“É aquela ali, Dimi, aquela toda cinza!” – ele estava sorridente, toda aquela agitação animava a lembrança do chapeleiro.
A casa era muito bonita, mais não era a mais bela da rua. Seria difícil de acreditar que o ex-ministro da Noruega vivesse em um casebre como aquele, todavia ninguém do mundo trouxa sabia disso. A residência oficial de Jens Stoltenberg era uma mansão aos moldes modernos, toda equipada e conectada no sistema IPV6, a casa pensava por si só, e todos admiravam a riqueza e a retidão do ex-chefe do governo norueguês.
- Esse casebre combina com a fama dele! – senti que aquele sorriso sarcástico surgira em minha mente – Tem apenas uma janela visível, mas aquela parte da grama ainda está amassada da última vez que alguém se dirigiu aos fundos da casa.
“Verdade! Vou lá ver para você!” – sempre tão solícito, meu caro.
Enquanto Tarrant ia espionar, eu comecei a contar o número de telhas quebradas, eram muitas. Dava para se questionar o estado em que a sala ficaria em dias de neve. A janela estava encoberta com algo que parecia ser uma cortina, cinzenta e maltrapilha.
“Não consigo entrar, Dimi. Não tem porta traseira nem janela extra, o local parece vazio, tentei penetrar na casa, mas a parede parece sólida como pedra.” – sério?
Ele havia feito bem seu esconderijo, mas já um feitiço de segredo seria um risco social muito grande para o ilustre.
- A casa é falsa! – agora eu só precisava descobrir como penetrar na real residência de Stoltenberg.
A ideia me veio rápido, conjurei uma pedra de tamanho de um tijolo e a lancei na porta. Como previ, o objeto bateu e caiu, mas nenhum som fora produzido.
“Genial!” – eu sei.
- Accio! – e a pedra retornou à minha mão.
Lancei-a outra vez dessa vez em direção ao telhado. Um craque alto, e logo havia mais uma telha quebrada.
“Chega a ser fácil demais, Dimi!” – isso é que estava me fazendo pensar demais.
- Tente entrar pelo teto, Tarry! –
Ele sorriu debilmente e me obedeceu. Flutuou feericamente até o alto da residência e mergulhou. Outro craque, outra telha quebrada.
“Ainda não consigo entrar!” – eu notei.
Magia nunca penetraria naquele lugar, ainda assim o telhado era acessível por meios trouxas. Tarrant era magia, mesmo assim estava se chocando com as telhas.
- Pense, pense! – e me infiltrei outra vez em meu palácio mental.

O corredor e as portas, e eu outra vez no início dele. Dessa vez ela não me esperou tentar nenhuma sala, Eleinad surgiu para mim e me lançou aquele sorriso delicioso.
- Qual a questão, Dimizinho? – não mesmo, meu bem.
Desviei dela, como de costume, e segui em frente, visando uma porta no meio do corredor.
- Escudos e Proteções Mágicas! – ela disse alegremente – Eu sei tudo que está aí de cor.
- Eu também, mulher! – e abri a porta.

“Qual feitiço, Dimi?” – como se ele não soubesse.
Sorri e desaparatei, no outro instante eu estava em cima do telhado do casebre falso. Outra telha quebrada sob meus pés, mais uma e eu seria preso por dano ao patrimônio privado.
- Aqui é a entrada, com certeza. Mas não vai abrir se eu não souber a fórmula correta. – procurei de telha por telha, curiosamente aquele teto suportava meu peso muito bem.
“Até parece mágica!” – e uma risada de ironia para acentuar.
Ali estavam, três telhas eram diferentes. Havia vários desenhos, indicações de como prosseguir.
- Runas! – alfabeto nórdico que qualquer estudante aplicado de Hogwarts saberia decifrar – Era isso que estava no meu palácio mental, preciso decifrar essa inscrição.
Reconheci rápido a primeira, Nyd, a representação de Naudhiz. A outra já era comum para mim, simbolizava o gelo do castelo de Valhalla de hoje, Isa, o gigante de gelo Ymir, certamente. A última era a mais óbvia, especialmente em um feitiço desse gênero, Algiz, e certamente referente às Valquírias da proteção.
“Ainda bem que nunca perdeu uma aula dessas, hein?” - como se eu precisasse disso, meu pai me obrigara desde antes de Hogwarts a aprender tudo sobre a cultura nórdica.
Necessidade, gelo e proteção! Basicamente um enigma a ser desvendado. Não se tratava apenas de decifrar as runas, isso qualquer bruxo estudioso faria tranquilamente. O significado daquelas palavras só era óbvio para os descendentes da antiga ordem real, ou para os seletos conselheiros.
O romeno era o idioma no qual Bob Hitchens foi ensinado a usar magia, dessa forma todos nós, descendentes de sua linhagem, somos obrigados a aprender a enrolar a língua.
“Mas qualquer um dos idiomas reais serviria, Dimi!” – e o romeno nem era da realeza, até Bob ter que usá-lo.
- Inima înghețată de Ragnar Lodbrok, descoperi ceea ce este în vene! – as runas nas telhas começaram a brilhar, vibraram em seguida, e começaram a flutuar.
Uma porta. Simples, de madeira comum. Estava lá, no telhado, dando para o nada. Sem pensar muito eu girei a maçaneta e empurrei a porta para frente. As coisas poderiam ser mais complicadas, mas Stoltenberg não esperava que algum de nós o viesse procurar tão cedo.
“Besteira dele, ainda mais sabendo do jovem rei.” – concordei silenciosamente e atravesse o portal.
Proporcionalmente ao ocupante, a casa por dentro era fenomenalmente luxuosa. Não quero me perder em descrições detalhadas, seriam muitos móveis e elementos decorativos sobre os quais discorrer, porém memorizei rapidamente todos os detalhes e tracei rapidamente meu próprio perfil psicológico sobre o  bruxo: materialista e narcisista ao extremo, a julgar pelo número de retratos dele mesmo a ornamentar as impecáveis paredes do lugar.
“Acredito que já sabe como lidar com esse, não?”
- Sim. –
Àquela altura Stoltenberg já percebera nossa presença, e em menos de dois minutos veio caminhando em minha direção, todavia não demonstrou a surpresa que eu esperava.
- Mas se não é o honroso ex-Ministro Britânico da Magia!? – é claro, acabava que eu me tornara um pouco famoso sim – Eu estava esperando que cedo ou tarde você realmente viesse aqui, especialmente quando tomei conhecimento da morte de um certo clérigo. – muito rápido, por sinal, esse fluxo de informações – Só não achei que viria na mesma noite, quer dizer, como se já tivesse de posse de minha localização secreta mais antecipadamente do que meus planejamentos me garantiriam.
- Eu tenho meus métodos, sabe como é!? – tentei esboçar minha seriedade, mas não consigo reprimir meu sorriso vaidoso – Uma mão lava a outra, e as duas batem palmas e dançam.
- Eu só lamento que tenha vindo de tão longe por nada, não estou mais de posse dos pergaminhos do Selo, se quer saber. – como se eu fosse fácil de enganar a esse ponto -
- Vamos colocar as coisas dessa forma: Você vai me entregar os papeis que diz não ter e então eu não precisarei usar os métodos interrogatórios dos quais não gosto de dispor! – sentei-me em uma poltrona e cruzei as pernas – Assim, ninguém precisa sair machucado e eu não vou ficar me sentindo culpado pelo resto da minha vida, que a propósito será consideravelmente longa, por não ter poupado a saúde e a segurança de alguém tão perspicaz a ponto de invadir a residência mágica de um dos cinco conselheiros da irmandade bruxa dos países nórdicos e ter tomado sua forma física com a intenção de enganar o grande Dimitri Hitchens! –
Ele desfez o teatro e me mandou um sorriso malicioso.
- O que me delatou? – odeio explicar o óbvio.
- As pegadas ao redor da casa deixaram claro que alguém havia chegado antes de mim, você subiu no telhado pelos fundos, visto que as telhas quebradas estavam na parte da frente, onde você possivelmente atirou algo para testar a magia, por isso se esqueceu de apagar seus rastros. – agora a parte não óbvia – Além do mais o código dos conselheiros diz claramente para não abordar o assunto “Selo” com ninguém até que todas as confirmações de identidades fossem feitas. – ele abriu mais os olhos, mas manteve o sorriso.
- Espantoso! – nem tanto – Mas é claro que sua esperteza baseou-se em deslizes meus, tanto a invasão quanto o disfarce foram medidas de emergência. – mau perdedor.
- Bom, agora que todos nos entendemos, tenha a bondade de me dizer onde estão os pergaminhos! –
Ele inclinou a cabeça para a esquerda e seu corpo se esfumaçou. No lugar do político surgiu um homem branco jovem, aparentemente na faixa dos vinte anos, calça e jaqueta pretas, um corte curto e rebelde de cabelo preto liso.
Não tive muito tempo para pensar, rápido como uma flecha ele avançou por sobre mim, escancarou o maxilar e mordeu tenazmente meu pescoço. Senti minha força física se esgotar aos poucos, minha visão começara a escurecer.

Continua

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