“Podemos começar pelo último nome, já
estamos na Noruega mesmo.” Essa habilidade que ele tinha de citar o óbvio às
vezes era aborrecedora.
- Tanto faz, aparatando qualquer
distância se torna centímetros. – se era esse o jogo dele, eu estava no páreo.
A noite em Oslo estava agitada, alguma
festividade fez com que os cidadãos que àquela hora estariam em casa assistindo
a algum programa de televisão, estivessem perambulando em direção ao pátio do
palácio. De longe eu pude ouvir a música dos trouxas, aquela distorção sem
sentido nem razão.
O endereço direcionava ao lado menos
abastado da cidade, casinhas simplistas e nada modernas adornavam a rua.
Caminhei ao lado de Tarrant, tentei me portar como um trouxa para que ninguém
me distinguisse dos transeuntes ordinários.
“É aquela ali, Dimi, aquela toda cinza!”
– ele estava sorridente, toda aquela agitação animava a lembrança do
chapeleiro.
A casa era muito bonita, mais não era a
mais bela da rua. Seria difícil de acreditar que o ex-ministro da Noruega
vivesse em um casebre como aquele, todavia ninguém do mundo trouxa sabia disso.
A residência oficial de Jens Stoltenberg era uma mansão aos moldes modernos,
toda equipada e conectada no sistema IPV6, a casa pensava por si só, e todos
admiravam a riqueza e a retidão do ex-chefe do governo norueguês.
- Esse casebre combina com a fama dele! –
senti que aquele sorriso sarcástico surgira em minha mente – Tem apenas uma
janela visível, mas aquela parte da grama ainda está amassada da última vez que
alguém se dirigiu aos fundos da casa.
“Verdade! Vou lá ver para você!” –
sempre tão solícito, meu caro.
Enquanto Tarrant ia espionar, eu comecei
a contar o número de telhas quebradas, eram muitas. Dava para se questionar o
estado em que a sala ficaria em dias de neve. A janela estava encoberta com
algo que parecia ser uma cortina, cinzenta e maltrapilha.
“Não consigo entrar, Dimi. Não tem porta
traseira nem janela extra, o local parece vazio, tentei penetrar na casa, mas a
parede parece sólida como pedra.” – sério?
Ele havia feito bem seu esconderijo, mas
já um feitiço de segredo seria um risco social muito grande para o ilustre.
- A casa é falsa! – agora eu só
precisava descobrir como penetrar na real residência de Stoltenberg.
A ideia me veio rápido, conjurei uma
pedra de tamanho de um tijolo e a lancei na porta. Como previ, o objeto bateu e
caiu, mas nenhum som fora produzido.
“Genial!” – eu sei.
- Accio! – e a pedra retornou à minha
mão.
Lancei-a outra vez dessa vez em direção
ao telhado. Um craque alto, e logo havia mais uma telha quebrada.
“Chega a ser fácil demais, Dimi!” – isso
é que estava me fazendo pensar demais.
- Tente entrar pelo teto, Tarry! –
Ele sorriu debilmente e me obedeceu.
Flutuou feericamente até o alto da residência e mergulhou. Outro craque, outra
telha quebrada.
“Ainda não consigo entrar!” – eu notei.
Magia nunca penetraria naquele lugar,
ainda assim o telhado era acessível por meios trouxas. Tarrant era magia, mesmo
assim estava se chocando com as telhas.
- Pense, pense! – e me infiltrei outra
vez em meu palácio mental.
O corredor e as portas, e eu outra vez no início dele. Dessa vez ela não me esperou tentar nenhuma sala, Eleinad
surgiu para mim e me lançou aquele sorriso delicioso.
- Qual a questão, Dimizinho? – não
mesmo, meu bem.
Desviei dela, como de costume, e segui
em frente, visando uma porta no meio do corredor.
- Escudos e Proteções Mágicas! – ela
disse alegremente – Eu sei tudo que está aí de cor.
- Eu também, mulher! – e abri a porta.
“Qual feitiço, Dimi?” – como se ele não
soubesse.
Sorri e desaparatei, no outro instante
eu estava em cima do telhado do casebre falso. Outra telha quebrada sob meus
pés, mais uma e eu seria preso por dano ao patrimônio privado.
- Aqui é a entrada, com certeza. Mas não
vai abrir se eu não souber a fórmula correta. – procurei de telha por telha,
curiosamente aquele teto suportava meu peso muito bem.
“Até parece mágica!” – e uma risada de
ironia para acentuar.
Ali estavam, três telhas eram
diferentes. Havia vários desenhos, indicações de como prosseguir.
- Runas! – alfabeto nórdico que qualquer
estudante aplicado de Hogwarts saberia decifrar – Era isso que estava no meu
palácio mental, preciso decifrar essa inscrição.
Reconheci rápido a primeira, Nyd, a
representação de Naudhiz. A outra já era comum para mim, simbolizava o gelo do
castelo de Valhalla de hoje, Isa, o gigante de gelo Ymir, certamente. A última
era a mais óbvia, especialmente em um feitiço desse gênero, Algiz, e certamente
referente às Valquírias da proteção.
“Ainda bem que nunca perdeu uma aula
dessas, hein?” - como se eu precisasse disso, meu pai me obrigara desde antes
de Hogwarts a aprender tudo sobre a cultura nórdica.
Necessidade, gelo e proteção!
Basicamente um enigma a ser desvendado. Não se tratava apenas de decifrar as
runas, isso qualquer bruxo estudioso faria tranquilamente. O significado
daquelas palavras só era óbvio para os descendentes da antiga ordem real, ou
para os seletos conselheiros.
O romeno era o idioma no qual Bob
Hitchens foi ensinado a usar magia, dessa forma todos nós, descendentes de sua
linhagem, somos obrigados a aprender a enrolar a língua.
“Mas qualquer um dos idiomas reais
serviria, Dimi!” – e o romeno nem era da realeza, até Bob ter que usá-lo.
- Inima
înghețată de Ragnar Lodbrok, descoperi ceea ce este în vene! – as runas nas
telhas começaram a brilhar, vibraram em seguida, e começaram a flutuar.
Uma porta. Simples, de madeira comum.
Estava lá, no telhado, dando para o nada. Sem pensar muito eu girei a maçaneta
e empurrei a porta para frente. As coisas poderiam ser mais complicadas, mas Stoltenberg
não esperava que algum de nós o viesse procurar tão cedo.
“Besteira dele, ainda mais sabendo do
jovem rei.” – concordei silenciosamente e atravesse o portal.
Proporcionalmente ao ocupante, a casa
por dentro era fenomenalmente luxuosa. Não quero me perder em descrições detalhadas,
seriam muitos móveis e elementos decorativos sobre os quais discorrer, porém
memorizei rapidamente todos os detalhes e tracei rapidamente meu próprio perfil
psicológico sobre o bruxo: materialista
e narcisista ao extremo, a julgar pelo número de retratos dele mesmo a
ornamentar as impecáveis paredes do lugar.
“Acredito que já sabe como lidar com
esse, não?”
- Sim. –
Àquela altura Stoltenberg já percebera
nossa presença, e em menos de dois minutos veio caminhando em minha direção,
todavia não demonstrou a surpresa que eu esperava.
- Mas se não é o honroso ex-Ministro
Britânico da Magia!? – é claro, acabava que eu me tornara um pouco famoso sim –
Eu estava esperando que cedo ou tarde você realmente viesse aqui, especialmente
quando tomei conhecimento da morte de um certo clérigo. – muito rápido, por
sinal, esse fluxo de informações – Só não achei que viria na mesma noite, quer
dizer, como se já tivesse de posse de minha localização secreta mais
antecipadamente do que meus planejamentos me garantiriam.
- Eu tenho meus métodos, sabe como é!? –
tentei esboçar minha seriedade, mas não consigo reprimir meu sorriso vaidoso – Uma
mão lava a outra, e as duas batem palmas e dançam.
- Eu só lamento que tenha vindo de tão
longe por nada, não estou mais de posse dos pergaminhos do Selo, se quer saber.
– como se eu fosse fácil de enganar a esse ponto -
- Vamos colocar as coisas dessa forma: Você
vai me entregar os papeis que diz não ter e então eu não precisarei usar os
métodos interrogatórios dos quais não gosto de dispor! – sentei-me em uma
poltrona e cruzei as pernas – Assim, ninguém precisa sair machucado e eu não
vou ficar me sentindo culpado pelo resto da minha vida, que a propósito será
consideravelmente longa, por não ter poupado a saúde e a segurança de alguém tão
perspicaz a ponto de invadir a residência mágica de um dos cinco conselheiros
da irmandade bruxa dos países nórdicos e ter tomado sua forma física com a
intenção de enganar o grande Dimitri Hitchens! –
Ele desfez o teatro e me mandou um
sorriso malicioso.
- O que me delatou? – odeio explicar o
óbvio.
- As pegadas ao redor da casa deixaram
claro que alguém havia chegado antes de mim, você subiu no telhado pelos
fundos, visto que as telhas quebradas estavam na parte da frente, onde você
possivelmente atirou algo para testar a magia, por isso se esqueceu de apagar
seus rastros. – agora a parte não óbvia – Além do mais o código dos
conselheiros diz claramente para não abordar o assunto “Selo” com ninguém até
que todas as confirmações de identidades fossem feitas. – ele abriu mais os
olhos, mas manteve o sorriso.
- Espantoso! – nem tanto – Mas é claro
que sua esperteza baseou-se em deslizes meus, tanto a invasão quanto o disfarce
foram medidas de emergência. – mau perdedor.
- Bom, agora que todos nos entendemos,
tenha a bondade de me dizer onde estão os pergaminhos! –
Ele inclinou a cabeça para a esquerda e
seu corpo se esfumaçou. No lugar do político surgiu um homem branco jovem,
aparentemente na faixa dos vinte anos, calça e jaqueta pretas, um corte curto e
rebelde de cabelo preto liso.
Não tive muito tempo para pensar, rápido
como uma flecha ele avançou por sobre mim, escancarou o maxilar e mordeu
tenazmente meu pescoço. Senti minha força física se esgotar aos poucos, minha
visão começara a escurecer.
Continua
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