Vozes. Várias vozes cantando em um
coral. A sensação era de leveza, mas a tontura era incontrolável. Aos poucos
minha visão foi clareando, em minha frente estava um belo jardim, todos os
tipos de flores que eu conhecia estavam ali. O cheiro de terra molhada era
muito agradável, e aos poucos a tontura também se foi. Não reconheci o lugar,
as vozes haviam parado de cantar.
Eu estava diante de uma janela, senti
que meus membros estavam amarrados. Logo percebi a cena ao redor. Em uma grande
cadeira fui atado, firmemente, não conseguia executar um movimento sequer.
Também não senti que tinha forças para me mover, era como se a força vital
houvesse me abandonado.
- É, a sensação é essa mesmo! – aquela
voz, reconheci, mas de onde? – Como você não morreu, mesmo depois que eu sequei
suas veias, resolvi que amarrado seria mais fácil lidar com você!
As lembranças vieram todas, de uma vez
só. Algo dera terrivelmente errado, e o tempo estava passando. Logo seria tarde
demais. Não consegui localizar Tarrant, mas por sorte minha cartola ainda jazia
em minha cabeça.
- O que você fez com Stoltenberg? –
juntei todas as minhas forças para formar essa pergunta.
Ele sorriu para mim, incrédulo.
- Engraçado, eu estava prestes a fazer a
mesma pergunta. – eu não tinha mais tempo para protelar com o sanguessuga – Não
vi um só rastro do maldito por aqui.
Aos poucos eu senti a magia voltando,
mas continuei agindo como se fraco. Ele olhou em meus olhos e seu sorriso se
alargou.
- Vejo que está se recuperando, mais
rápido do que previ. – como ele sabia? – Vamos fazer o seguinte. – ele veio em
minha direção – Você vai me contar o que sabe sobre o paradeiro do dono da casa
e eu não precisarei quebrar todos os seus ossos. – o fato dele não ter me
ameaçado de morte me espantou.
- Tarrant? – chamei, ao que em minha
frente surgiu meu velho amigo – Tudo bem, vou expor o caso para você, não
obstante, espero que não canse suas forças de vampiro tentando obter total
compreensão a respeito do caso. – antes que eu terminasse de falar, o vampiro virou
a cabeça na direção do meu espectro mágico.
- Quem é você? – quantos truques esse
vampiro tinha?
Tarrant ergueu os braços, uma forte
ventania invadiu o prédio. Cada vez mais forte, mas o vampiro não se abalou,
avançou em direção ao chapeleiro vorazmente. Óbvio que o atravessou, o que me
deu tempo de executar a fuga. Antes que o inimigo retornasse, Tarrant se
aproximou de mim e cortou as cordas usando fogo mágico, o vento parou
instantaneamente.
- Agora é comigo. – minha varinha não
estava mais no meu bolso, maldito, era nova em folha – Tarrant, minha varinha!
O vampiro já estava em cima de mim outra
vez, mas dessa vez eu consegui escapar.
- Acha mesmo que pode ser tão rápido
quanto eu? – já vi essa fala antes.
- Não preciso ser mais rápido, tenho
tudo que preciso dentro da cartola.
Tirei o chapéu e preparei um feitiço de
conjuração. Movimentos rápido dos dedos, seguidos de algumas palavras em latim,
e logo uma lufada de fadas-mordentes voou em direção do monstro.
- Arh! Esse truque barato de mágico de
festa não me afeta, idiota! – dizia ele, enquanto tentava se livrar das
pequenas mordidas.
O chapeleiro retornou com minha varinha
flutuando em suas mãos. Depois de a recuperar eu tratei de garantir mais alguns
segundos de segurança.
- Incarcerous! – bradei, e logo várias
cordas o imobilizaram.
Tomei o espaço necessário, não senti a
presença dos pergaminho na casa, e pelo comportamento dele ele não os possuía.
- Vou ter que arrancar seu coração por
isso, rapaz! – ameaças vãs, foi tudo que sobrou da pose de bad boy dele – Esses
barbantes não vão me segurar por muito tempo.
- Mas eu não preciso de muito mais tempo
com você. – Tarrant havia batido cada canto da casa, uma único objeto fora encontrado.
“Mas tenho certeza que isso aqui é muito
estranho!” – ele estava com um pequeno inseto nas mãos.
Cerca de dois centímetros de tamanho, de
azul-safira berrante. Tarrant o continha, mas de segundo em segundo ele girava
rapidamente, usando asas que lhe saiam da cabeça.
- Essa casa é cheia de insetos
estranhos. – soltou o vampiro – Antes de entrar aqui um besouro maluco
aparentemente secretou algo que me deixou bem para baixo.
Eu conhecia o padrão, de certa forma.
- Esse inseto aí, o Gira-gira, não é
nativo dessas terras. São mais comuns na Austrália. E o besouro-da-melancolia
que atacou você não resistiria ao frio. – mas ela não poderia estar na Noruega,
não comigo aqui – Algum especialista em insetos esteve aqui, porque Stoltenberg
não criaria essas criaturas.
O vampiro me encarou, mas eu já
entendera o jogo dele.
- Sem mais leituras de mentes por hoje,
meu caro, pode não parecer, mas acaba que sou até bom em Oclumência. – na
verdade a cartola de Tarrant é que me ajudava nessa questão.
Sem mais conversas, eu precisava escapar
dali antes que o vampiro se soltasse das amarras, o que aconteceria a qualquer
segundo.
- Ei! Isso é um caldeirão feito de casco
de Caranguejo-de-Fogo? – estanquei ao admirar tal joia rara – Vai ficar ótimo
na minha sala, quando eu a reconstruir.
Peguei o objeto e pus dentro da cartola.
- Adeus, sanguessuga! Espero nunca mais
olhar para essa sua cara de galã de Hollywood.
Eu sabia como encontrá-la, esses insetos
têm certos padrões de comportamentos, e ela atraia todo tipo de irregularidades.
Aparatei no centro de Oslo, precisava seguir as pistas para encontrar a ladra
ruiva. Com certeza ainda estava na cidade, logo perceberia que havia esquecido
seu caldeirão amado na casa de Stoltenberg.
“O quanto você acha que o vampiro leu da
sua mente?” – boa pergunta.
- Não o bastante, ele precisava de
contato visual, e evitei o máximo que pude. – mas com certeza ele viu algo.
Estava em um beco sem saída, dali eu
poderia executar o feitiço de localização com perfeição. Tirei o caldeirão da
cartola e o pus no chão.
- Tarrant, você vai servir de antena! –
tão útil, esse meu amigo.
O chapeleiro flutuou até o alto de um
prédio, assim o alcance do feitiço seria mais amplo.
- Factum
est autem dominus occurrit – repetida várias vezes, essa afirmação em latim
ativaria o feitiço de localização.
“Encontrei, lá estão os insetos!” –
Tarrant saltitava de alegria, enquanto apontava para algum ponto na parte
nordeste da cidade.
Recolhi os objetos e segui a direção
para onde ele apontara. O ponto final era um prédio bonito, um hotel de luxo.
- O Gran Hotel! – uma construção
fenomenal – Descer do salto nunca!
Acima do prédio eu percebi a
concentração de insetos. Com certeza estava na cobertura, a tratante. Aparatei
no teto, onde geralmente grandes festas são celebradas, como a daquela noite.
Havia muitos trouxas por ali, mas a música alta disfarçou minha chegada.
“Alguém poderia ter visto!” – essas
afirmações óbvias dele estavam me aborrecendo, já.
Ela não estava à vista. Desci e observei
o corredor. Lá estavam, vários gira-giras, enfeitando a porta de um dos quartos
principais. Tarrant atravessou, depois de dez segundos retornou.
“Está lá, está com o pergaminho!”
- Ok! – medidas deveriam ser tomadas –
Feche o perímetro, não queremos que ela desaparate!
“Mas dessa forma não vou poder ajudar
você!” – muito solícito.
- Não importa, eu sei me virar! –
Ele se desintegrou e se espalhou.
- Alohomora! – a tranca se abriu e eu
entrei no quarto.
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