“Oi!”
– Tarrant quase me matava do coração. - “Mas eu morreria junto, Dimi!” – você
já está morto, T – “Magoei!”.
Ótimo, um feitiço sentimental.
- Ascendio! – rapidamente fui içado até
o topo do palácio gelado.
Mostrei a palma da mão ao símbolo real
que selava a passagem!
- Deschide-l!
– fazia tempo que eu não falava tantas frases em romeno.
O selo, que para o resto do mundo seria
apenas parte da ínfima decoração do prédio, correu para cima e revelou um
abismo negro, aparentemente sem fundo, por onde eu deveria me jogar para
alcançar meu objetivo do dia.
- Bom, é isso, pelo menos eu sei que
morrer eu não vou! – quebrar os ossos não deveria ser opção – apontei a varinha
para baixo e me joguei - Aresto Momentum! –
Suavemente desci pelos vários
quilômetros, eu poderia ter aproveitado um pouco da queda livre, mas o risco de
me empolgar e me esquecer de executar o feitiço era muito real. Logo eu me vi
em uma masmorra que poderia muito bem ser o quarto do rei, tão bem decorada que
era, com todos os produtos do mercado negro adquiridos pela realeza nórdica.
- Accio cartola! – eu poderia ter sido
mais específico, se eu soubesse das outras dezenas de chapéus que viriam voando
até mim (cartola em inglês é Hat, que também pode se referir a vários outros
tipos de chapéus) – Ai, caramba! Só uma, gente, por favor!
Tarrant me fez o favor de recolher a
dita cuja. Aquela visão me causou um pequeno choque no coração, ver o
chapeleiro e sua cartola reunidos outra vez. É claro que eu estava executando
um feitiço de levitação através dele, mas mesmo sabendo disso a cena foi
comovente. Ele veio até mim sorrindo e depositou o adereço sobre minha cabeça.
Toda a magia do caos que estava
concentrada em mim desde que eu despertei foi canalizada pelo chapéu, eu me
senti muito mais leve, e livre. Uma cópia exata da cartola surgiu na cabeça de
Tarrant, e pude ver refletida nele toda minha alegria.
- Estou completo! Estou completamente
inteiro outra vez! – o lugar conseguia ser ainda mais gelado do que o resto do castelo,
mas o frio nunca me incomodou mesmo.
Aqueles passos outra vez, pude ouvi-los
perfeitamente. Desta vez ele não esperou se aproximar, a rajada verde veio
impiedosamente em minha direção. Desviei por pouco, uma pequena explosão foi o
resultado do desvio.
Ele fez outra vez o feitiço
anti-feitiço, o ar logo ficou mais leve. Tarrant desapareceu outra vez. É claro
que esse feitiço não era nada para mim, não com toda aquela magia do caos que
eu estava contendo. E naquele momento especialmente, tudo estava sob meu
controle total.
- Tem certeza que não há uma forma
diplomaticamente mais viável de resolvermos essa questão? – Eu não poderia nem
queria matar o Gareth, o infeliz só estava fazendo o trabalho dele.
- Você não tem escapatória, verme! – ele
magoou meus sentimentos.
Agitou a varinha mais uma vez, mas eu já
estava cansado de ter que ficar desviando de tudo.
- Avada Kedavra! – ele queria mesmo me
despachar para o outro mundo.
Fiquei firme e recebi o golpe. Senti uma
vertigem que percorreu meu corpo inteiro, mas a única serventia daquela
maldição era causar algo que para mim era vetado, a morte.
- Minha vez: Stiriacus! – achei que
seria poético dessa forma.
Gareth não teve tempo para esboçar uma
reação, a expressão facial da sua estátua de gelo foi o olhar de surpresa mais
cômico que já presenciei. Ele não morreria, não se alguém o encontrasse em
menos de vinte e quatro horas, mas eu cuidaria para que isso acontecesse.
Antes de desaparatar do Valhalla, mandei
uma mensagem para o rei através do meu patrono, em breve ele saberia que seu
gigante careca estava a ponto de se tornar uma estátua de gelo perene.
“E aí, juntar os pele cinzentas?” –
Tarrant sorria tal qual o Cheschire Cat.
- Ainda não, tem outra coisa que eu
preciso fazer antes de deixar as terras nórdicas. – ele sabia disso, é claro.
Aparatei em uma pequena vila, daquelas
que se formam em torno de uma velha igreja. Pela hora, como esperado, todos
estavam recolhidos em suas residências, na rua havia apenas um velho encostado
nas paredes paroquiais.
- Um trocado por um sorriso desdentado?
– ele estendeu uma caneca de alumínio em minha direção.
Pus a mão no bolso da sobrecasaca,
peguei dois galeões adquiridos especialmente para esse fim. Fiquei sem nenhum
tostão. O velho sorriu para mim, pus as moedas na caneca. Ele tirou do bolso da
própria calça um papel amassado e jogou aos meus pés.
- Não se deve jogar lixo no chão,
senhor. – e me abaixei para recolher o papel – O padre está na casa?
- Sim, está jantando agora. – ótimo.
Sorri e me dirigi ao portão da casa
paroquial. Estava destrancado, abri e segui pelo caminho de seixos que
continuava até a porta. Não havia barulhos altos, apenas o som de talheres
contra pratos. O local era um casebre ainda mais simplista que a igreja em si,
não houve muito investimento por parte do Vaticano nessa cidadezinha gelada.
Bati três vezes e esperei, logo o
barulho do jantar cessou, ouvi uma cadeira sendo arrastada e em seguida passos
em direção à porta.
- Quem seria? – a voz rouca do padre
indagou confiante.
- Trago fome e sede, peço por pão e
vinho! – a interjeição dele me foi completamente audível.
A porta se abriu, o padre ainda trajava
as vestes da missa. Alto e escanhoado, Don Alfrothul me encarou ternamente,
como um verdadeiro padre olha para uma ovelha desgarrada.
- Veio para me matar, meu filho? – sua
voz era calma e deveras paciente – Pode antes me deixar enviar uma coruja para
Anrid?
- Posso, mas eu lerei o que quer que
seja! – nada de espertezas no momento final.
Ele se virou e se dirigiu à
escrivaninha. Já havia papel e uma pena preparada. Sentou-se na cadeira e se
pôs a escrever, ágil e firme como deve ser um homem que sabe que vai morrer
merecidamente. Enquanto isso eu observei o local, os resquícios do jantar ainda
sobre a mesa, a decoração paupérrima de quem não tinha motivos para juntar
riquezas. Olhei todos os detalhes, parei a vista em um porta-retratos com a
foto de duas crianças, um garoto sorridente de cabelos castanhos avermelhados e
uma garotinha loura de ar angelical.
- Pronto, pode ler! – ele me entregou a
folha. Li rapidamente e devolvi
- Pode enviar, mas seja rápido!
Ele se dirigiu à janela, eu continuei a
observar o local.
- Vejo que manteve o hábito da Cannabis!
– reconheci as cinzas varridas para debaixo do tapete – Além de ainda permanecer
negligente quanto à arrumação da casa.
Ele se virou para mim, depois de enviada
a coruja.
- Apenas quando estava alto. – e deixou
uma risada escapar. – Você está procurando por ele? Ainda?
Aquiesci com a cabeça.
- Sabe que é uma luta mortal, a sua, não
sabe?
- Todos os bons combates são!
Sem mais conversas, saquei a varinha e ceifei
sua vida da forma mais indolor que conhecia. Embora apenas fosse conjectura, eu
nunca saberia da dor real.
“O que diz no bilhete?” – manteve-se tão
quieto que eu me esquecera de que estava ali.
Tirei o papel amassado do bolso, abri-o
e vi o conteúdo.
- Cinco nomes e cinco endereços. –
Tarrant sorriu triunfante – Mas lembre-se que são apenas mais informações, essa
missão se torna cada vez mais cansativa.
Roubei a foto do porta-retratos e apontei
a varinha para o corpo do padre.
- Evanesco! –
O corpo se desintegrou, ao mesmo tempo
em que eu desaparatava,
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