14 de maio de 2014

(Spin-off) No Valhalla - Parte 2

 “Oi!” – Tarrant quase me matava do coração. - “Mas eu morreria junto, Dimi!” – você já está morto, T – “Magoei!”.
Ótimo, um feitiço sentimental.
- Ascendio! – rapidamente fui içado até o topo do palácio gelado.
Mostrei a palma da mão ao símbolo real que selava a passagem!
- Deschide-l! – fazia tempo que eu não falava tantas frases em romeno.
O selo, que para o resto do mundo seria apenas parte da ínfima decoração do prédio, correu para cima e revelou um abismo negro, aparentemente sem fundo, por onde eu deveria me jogar para alcançar meu objetivo do dia.
- Bom, é isso, pelo menos eu sei que morrer eu não vou! – quebrar os ossos não deveria ser opção – apontei a varinha para baixo e me joguei - Aresto Momentum! –
Suavemente desci pelos vários quilômetros, eu poderia ter aproveitado um pouco da queda livre, mas o risco de me empolgar e me esquecer de executar o feitiço era muito real. Logo eu me vi em uma masmorra que poderia muito bem ser o quarto do rei, tão bem decorada que era, com todos os produtos do mercado negro adquiridos pela realeza nórdica.
- Accio cartola! – eu poderia ter sido mais específico, se eu soubesse das outras dezenas de chapéus que viriam voando até mim (cartola em inglês é Hat, que também pode se referir a vários outros tipos de chapéus) – Ai, caramba! Só uma, gente, por favor!
Tarrant me fez o favor de recolher a dita cuja. Aquela visão me causou um pequeno choque no coração, ver o chapeleiro e sua cartola reunidos outra vez. É claro que eu estava executando um feitiço de levitação através dele, mas mesmo sabendo disso a cena foi comovente. Ele veio até mim sorrindo e depositou o adereço sobre minha cabeça.
Toda a magia do caos que estava concentrada em mim desde que eu despertei foi canalizada pelo chapéu, eu me senti muito mais leve, e livre. Uma cópia exata da cartola surgiu na cabeça de Tarrant, e pude ver refletida nele toda minha alegria.
- Estou completo! Estou completamente inteiro outra vez! – o lugar conseguia ser ainda mais gelado do que o resto do castelo, mas o frio nunca me incomodou mesmo.
Aqueles passos outra vez, pude ouvi-los perfeitamente. Desta vez ele não esperou se aproximar, a rajada verde veio impiedosamente em minha direção. Desviei por pouco, uma pequena explosão foi o resultado do desvio.
Ele fez outra vez o feitiço anti-feitiço, o ar logo ficou mais leve. Tarrant desapareceu outra vez. É claro que esse feitiço não era nada para mim, não com toda aquela magia do caos que eu estava contendo. E naquele momento especialmente, tudo estava sob meu controle total.
- Tem certeza que não há uma forma diplomaticamente mais viável de resolvermos essa questão? – Eu não poderia nem queria matar o Gareth, o infeliz só estava fazendo o trabalho dele.
- Você não tem escapatória, verme! – ele magoou meus sentimentos.
Agitou a varinha mais uma vez, mas eu já estava cansado de ter que ficar desviando de tudo.
- Avada Kedavra! – ele queria mesmo me despachar para o outro mundo.
Fiquei firme e recebi o golpe. Senti uma vertigem que percorreu meu corpo inteiro, mas a única serventia daquela maldição era causar algo que para mim era vetado, a morte.
- Minha vez: Stiriacus! – achei que seria poético dessa forma.
Gareth não teve tempo para esboçar uma reação, a expressão facial da sua estátua de gelo foi o olhar de surpresa mais cômico que já presenciei. Ele não morreria, não se alguém o encontrasse em menos de vinte e quatro horas, mas eu cuidaria para que isso acontecesse.
Antes de desaparatar do Valhalla, mandei uma mensagem para o rei através do meu patrono, em breve ele saberia que seu gigante careca estava a ponto de se tornar uma estátua de gelo perene.
“E aí, juntar os pele cinzentas?” – Tarrant sorria tal qual o Cheschire Cat.
- Ainda não, tem outra coisa que eu preciso fazer antes de deixar as terras nórdicas. – ele sabia disso, é claro.

Aparatei em uma pequena vila, daquelas que se formam em torno de uma velha igreja. Pela hora, como esperado, todos estavam recolhidos em suas residências, na rua havia apenas um velho encostado nas paredes paroquiais.
- Um trocado por um sorriso desdentado? – ele estendeu uma caneca de alumínio em minha direção.
Pus a mão no bolso da sobrecasaca, peguei dois galeões adquiridos especialmente para esse fim. Fiquei sem nenhum tostão. O velho sorriu para mim, pus as moedas na caneca. Ele tirou do bolso da própria calça um papel amassado e jogou aos meus pés.
- Não se deve jogar lixo no chão, senhor. – e me abaixei para recolher o papel – O padre está na casa?
- Sim, está jantando agora. – ótimo.
Sorri e me dirigi ao portão da casa paroquial. Estava destrancado, abri e segui pelo caminho de seixos que continuava até a porta. Não havia barulhos altos, apenas o som de talheres contra pratos. O local era um casebre ainda mais simplista que a igreja em si, não houve muito investimento por parte do Vaticano nessa cidadezinha gelada.
Bati três vezes e esperei, logo o barulho do jantar cessou, ouvi uma cadeira sendo arrastada e em seguida passos em direção à porta.
- Quem seria? – a voz rouca do padre indagou confiante.
- Trago fome e sede, peço por pão e vinho! – a interjeição dele me foi completamente audível.
A porta se abriu, o padre ainda trajava as vestes da missa. Alto e escanhoado, Don Alfrothul me encarou ternamente, como um verdadeiro padre olha para uma ovelha desgarrada.
- Veio para me matar, meu filho? – sua voz era calma e deveras paciente – Pode antes me deixar enviar uma coruja para Anrid?
- Posso, mas eu lerei o que quer que seja! – nada de espertezas no momento final.
Ele se virou e se dirigiu à escrivaninha. Já havia papel e uma pena preparada. Sentou-se na cadeira e se pôs a escrever, ágil e firme como deve ser um homem que sabe que vai morrer merecidamente. Enquanto isso eu observei o local, os resquícios do jantar ainda sobre a mesa, a decoração paupérrima de quem não tinha motivos para juntar riquezas. Olhei todos os detalhes, parei a vista em um porta-retratos com a foto de duas crianças, um garoto sorridente de cabelos castanhos avermelhados e uma garotinha loura de ar angelical.
- Pronto, pode ler! – ele me entregou a folha. Li rapidamente e devolvi
- Pode enviar, mas seja rápido!
Ele se dirigiu à janela, eu continuei a observar o local.
- Vejo que manteve o hábito da Cannabis! – reconheci as cinzas varridas para debaixo do tapete – Além de ainda permanecer negligente quanto à arrumação da casa.
Ele se virou para mim, depois de enviada a coruja.
- Apenas quando estava alto. – e deixou uma risada escapar. – Você está procurando por ele? Ainda?
Aquiesci com a cabeça.
- Sabe que é uma luta mortal, a sua, não sabe?
- Todos os bons combates são!
Sem mais conversas, saquei a varinha e ceifei sua vida da forma mais indolor que conhecia. Embora apenas fosse conjectura, eu nunca saberia da dor real.
“O que diz no bilhete?” – manteve-se tão quieto que eu me esquecera de que estava ali.
Tirei o papel amassado do bolso, abri-o e vi o conteúdo.
- Cinco nomes e cinco endereços. – Tarrant sorriu triunfante – Mas lembre-se que são apenas mais informações, essa missão se torna cada vez mais cansativa.
Roubei a foto do porta-retratos e apontei a varinha para o corpo do padre.
- Evanesco! –

O corpo se desintegrou, ao mesmo tempo em que eu desaparatava, 

Nenhum comentário:

Postar um comentário