Fazia uma hora que Armand encarava Ian,
sem mover um músculo. Estavam sentados, frente a frente, no meio da sala. Através
dos olhos ele estava passando todo o tipo de informação necessária para que a
missão fosse completada com sucesso. Pareciam duas estátuas, os dois vampiros,
perfeitamente moldados em cera, pois não havia uma imperfeição sequer.
“Já entendi tudo, pode parar de gritar
na minha cabeça!”
Tudo o que Ian queria era encontrar
Daniele e fugir com ela de volta para a América, porém a facção dos vampiros da
Romênia estava guardando essa informação a sete chaves, ele já não cabia em si
de ansiedade.
“Não interrompa o fluxo de pensamentos,
garoto, preciso passar toda a história de cinco países em menos de dez minutos
para essa sua cabeça!” –
A noite havia acabado de cair, Ian fora
ao encontro de Armand com intenção de finalmente ser informado do paradeiro de
sua amada. A vampira fora raptada há três meses por um grupo de lobisomens
noruegueses, todos parte de uma gangue de renegados, nenhum registrado por
nenhum ministério.
Ian não suportava mais aquela tensão,
rasgou uma folha de um exemplar de Por
que não morri ao ouvir o canto do Agoureiro – de autoria de Gulliver
Pokerby – e em menos de dois segundos havia um origami em forma de Fênix em sua mão.
- Uma homenagem ao livro danificado? –
indagou o outro risonho.
Armand mais parecia um adolescente de
dezessete anos, seu rosto chegava a ser angelicalmente andrógeno. Seu cabelo
castanho-avermelhado, liso e cheio até os ombros, num corte eternizado pela
maldição, dava-lhe um ar infantil que apenas seu olhar de assassino e ancião destruía.
- Acho que já sei de tudo que preciso
sobre esse tal conselho, cara. Já tenho o endereço do tal de Stoltenberg, já
conheço as runas e os possíveis significados. E qualquer necessidade eu posso
ligar para você para perguntar. – essa comodidade o apressava ainda mais.
Armand sorriu e ficou de pé.
- Não esqueça que está lidando com
bruxos, garoto! – o vampiro se aproximou da estante enquanto falava – Qualquer deslize
e você vai acabar seco e atrofiado dentro de um caixão, isso na melhor das
hipóteses.
Ian não gostava de ser chamado de
garoto, mesmo por um vampiro quatrocentos anos mais velho que ele,
especialmente um que aparentava ainda estar no colegial. Mas isso pouco
importava, se ele conseguisse cumprir essa missão e tomasse posse dos
pergaminhos do Selo, Armand diria a exata localização da matilha que
sequestrara Daniele e ainda o ajudaria no resgate.
- Não se preocupe comigo, bonitinho! Se
depender de mim esses papeis já estão nas suas mãos.
Sem dar muito tempo para que Armand respondesse,
Ian se foi. Tão rápido quanto uma flecha, ele correu pela Floresta de
Hoia-Baciu, passou invisível pelas pessoas do Condado de Cluj e se dirigiu à
parte menos habitada, para então alçar voo e seguir em direção à Noruega.
A noite em Oslo estava exatamente como
Ian gostava: cheia de humanos perambulando. Ele precisou de muita concentração
para não perseguir uma jovem ruiva que saiu correndo exatamente da rua onde ele
precisava entrar. A moça em questão carregava um grande volume nas mãos,
aparentemente uma estudante apressada.
Passada a distração, e depois de ele
saciar sua sede com um carteiro retardatário, que chegaria em casa com um litro
a menos de sangue, caso sobrevivesse, Ian seguiu ao local indicado.
“Essa é a casa?” – pensou ele, incrédulo
com a simplicidade da residência do famoso economista – “Com certeza ele deve
ter outra, só pode!”.
Diante da casa ele pensou no que deveria
fazer. Então foi até os fundos do quintal, para evitar ser visto, buscou duas
pedras no chão e subiu ao telhado.
“Identificar o tipo de feitiço.” –
pensou e atirou as pedras em locais distintos, na parte frontal do telhado.
Algumas telhas se quebraram, óbvio, e
ele se aproximou para observar através dos buracos deixados. Naquele momento
ele ouviu um zumbido estranho se aproximando, mas ignorou e observou o interior
da casa. Curiosamente não conseguia ver nada além de fumaça.
“Então é uma casa falsa, como disse
Armand.”.
Antes que pudesse pensar em algo mais,
uma tristeza enorme o abateu. Visões de Daniele sendo sequestrada, imagens de
seu irmão sendo incinerado por um grupo de bruxas de Salem. Uma melancolia sem
precedentes o acometeu de tal forma, que por alguns minutos ele não conseguira se
lembrar do que fora fazer ali.
Rapidamente identificou um besouro
pousado em seu ombro, a fonte daquele zumbido estranho. Do inseto saia uma
secreção asquerosa, que causou nojo imediato no vampiro. Com um piparote forte
como um soco, o inseto foi repelido.
Aparentemente o besouro era a fonte da
melancolia que Ian sentira, pois no exato momento que o matou toda a tristeza
passara. Começou então a procurar os indicadores, segundo Armand seriam runas
desenhadas em algum local fixo.
“Telhas não são locais fixos, mas aqui
estão as malditas runas!”
A partir das instruções
psicointroduzidas por Armand, ele decifrou o significado das runas.
“Gelo, necessidade, proteção.”
Aquilo estava nas informações, só
precisou se lembrar da frase correta!
- Inima
înghețată de Ragnar Lodbrok, descoperi ceea ce este în vene! - as runas nas
telhas começaram a brilhar, vibraram em seguida, e começaram a flutuar.
Uma porta. Simples, de madeira comum.
Estava lá, no telhado, dando para o nada. O plano era atrair Stoltenberg para
fora e lidar com ele ali mesmo, não arriscaria um combate contra um bruxo
dentro de sua residência.
Infelizmente, seu sensor de vampiro não
identificou ninguém vivo dentro da casa, o que para Ian foi uma enorme surpresa
e um grande rombo no plano de Armand. Porém ele não teve muito tempo para
pensar, sua superaudição detectou ao longe um bruxo aparatando, e ele pôde
sentir a aproximação vindoura.
Pulou dentro do portal e o fechou. Não
tinha muito tempo, precisava encontrar os pergaminhos do Selo antes que aquele
bruxo chegasse ao local. Na pressa ele tropeçou em um grande caldeirão,
aparentemente feito de casco de Caranguejo de Fogo. Em outra ocasião ele
adoraria admirar a joia, porém precisava pensar rápido. Procurou os papeis
descritos por Armand, buscou por cada canto da mansão (sim, por dentro o
casebre era um casarão de luxo), mal teve tempo para admirar a decoração.
Estava e impacientando, quando ouviu a porta mágica se abrir.
“Droga! Não tenho tempo para fugir,
preciso enfrentar o maldito!”
Antes que o bruxo descesse as escadas,
Ian usara seu dom de ilusão para se parecer com o dono do lugar. Foi andando em
direção ao salão principal, onde o estranho estaria. Curiosamente deu de cara
com um rosto conhecido, vira-o várias vezes nos jornais britânicos, enquanto
perseguia a matilha renegada.
Armand havia relatado a possibilidade
daquela visita, de acordo com o ancião Hitchens assassinara o bruxo que havia
executado o feitiço do Selo naquela mesma noite, o mesmo vivia disfarçado como
um bondoso padre em algum vilarejo norueguês.
- Mas se não é o honroso ex-Ministro
Britânico da Magia!?
Vampiro Ian, mas quem diria......
ResponderExcluirEu uiahauhauhauahua
Excluir(Ele não vai morrer, nem pense nisso!)